O Silêncio Também Pode Aprisionar

TERAPIA 

Por Ivan Batista |


O mundo faz barulho demais.
Mas o silêncio absoluto também cobra um preço.

Quem vive o autismo de perto entende o quanto o som pode ser cruel. Um ambiente comum pra maioria das pessoas — uma sala de aula, um mercado, uma festa — pode ser simplesmente insuportável para uma criança autista, principalmente no nível 3 de suporte.

Aqui em casa, com o Arthur, isso sempre foi muito claro.

O abafador de ruídos entrou na nossa vida como um alívio. E não é exagero dizer isso. Ele trouxe conforto, segurança… quase como um escudo contra um mundo que, muitas vezes, agride sem perceber.

E sim — ele é importante. Muito importante.

Mas existe uma linha tênue que pouca gente fala sobre.

O uso excessivo.

Com o tempo, começamos a perceber algo no Arthur. Sempre que o abafador não estava por perto, o desconforto dele parecia maior do que antes. Situações que ele até tolerava passaram a ser mais difíceis. A reação vinha mais rápida, mais intensa.

E aí vem a reflexão que, como pai, doeu admitir:

Será que, ao tentar proteger, eu estava limitando?

O abafador não pode virar muleta permanente.
Porque o mundo não vai abaixar o volume.

Existe uma diferença entre dar suporte e criar dependência. E essa diferença, muitas vezes, é construída nos detalhes do dia a dia.

Usar o abafador em momentos de sobrecarga real faz sentido. É cuidado. É respeito ao limite sensorial da criança.
Mas usar o tempo todo… pode impedir o desenvolvimento da tolerância gradual aos estímulos.

E aqui não estamos falando de forçar. Nunca foi sobre isso.

Estamos falando de preparar.

De ajudar, aos poucos, a criança a entender o ambiente. A lidar, dentro do possível, com os sons da vida real. Porque a inclusão não acontece só quando o mundo se adapta — ela também passa por pequenas conquistas da própria criança.

Com o Arthur, começamos a ajustar.

Reduzimos o uso em ambientes controlados. Tiramos por alguns minutos. Observamos. Respeitamos quando era demais, mas incentivamos quando era possível avançar.

E, aos poucos, vimos mudanças.

Pequenas, mas importantes.

Porque cada segundo a mais sem o abafador, quando feito com segurança, é um passo na direção da autonomia.

Esse é o ponto que muita gente precisa entender:
tecnologia assistiva não pode virar prisão confortável.

O abafador é ferramenta — não destino.

E como toda ferramenta, precisa ser usada com consciência.

No fim, o nosso papel como pais não é silenciar o mundo para os nossos filhos.
É ajudá-los a encontrar formas de viver nele.

Mesmo quando ele é barulhento demais.