Prioridade no papel ou respeito na prática?

DIREITO 

Por Ivan Batista |

A legislação brasileira avançou. E isso precisa ser dito.

Hoje, pessoas com autismo têm direito a atendimento prioritário. Não é um favor. É lei. Um reconhecimento necessário de que existem necessidades reais, urgentes, invisíveis para muitos… mas intensas para quem vive.

A Lei Berenice Piana foi um marco ao reconhecer o autismo como deficiência, abrindo portas para direitos básicos. Depois, a Lei Romeo Mion reforçou esse caminho ao criar a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA), garantindo acesso facilitado a esses direitos — entre eles, a prioridade.

Mas existe uma diferença enorme entre ter direito… e ter esse direito respeitado.

Na teoria, a prioridade está garantida.
Na prática, ainda é preciso explicar.

Explicar por que aquela criança não pode esperar muito tempo em uma fila.
Explicar por que o ambiente cheio, barulhento, imprevisível pode desencadear uma crise.
Explicar por que, mesmo sem “parecer”, existe uma condição ali.

E é aí que começa o desgaste.

Porque nenhum pai deveria precisar justificar um direito o tempo todo.

Eu já vivi isso.

O olhar atravessado.
O julgamento silencioso.
A impaciência de quem não entende.

E, muitas vezes, a falta de preparo de quem deveria garantir o cumprimento da lei.

A prioridade para o autista não é privilégio.
É necessidade.

Para uma criança com nível 3 de suporte, como o Arthur, esperar pode não ser apenas desconfortável — pode ser desregulador. Pode gerar crise, sofrimento, desgaste para toda a família.

E tudo isso poderia ser evitado com algo simples: respeito.

A lei existe para equilibrar o jogo.
Para dar condições mínimas de dignidade.

Mas nenhuma lei, sozinha, transforma a realidade.

O que transforma é consciência.

É o atendente que entende sem questionar.
É a sociedade que respeita sem julgar.
É o sistema que funciona sem que a família precise lutar a cada passo.

Ainda estamos longe disso.

E é por isso que falar sobre prioridade é tão importante.

Não para pedir vantagem.
Mas para reafirmar um direito.

Porque quando a prioridade é respeitada, o que se evita não é apenas uma fila…

É sofrimento.

É crise.

É exclusão.

E quando a sociedade começa a entender isso, algo muda.

O direito deixa de ser papel…
E passa a ser prática.

E talvez esse seja o maior desafio que ainda temos pela frente:

Fazer com que o respeito chegue na mesma velocidade que a lei.