Quando a infância passa, o autismo some?

 REALIDADE

 Por Ivan Batista |


A infância do autista recebe atenção. A vida adulta… silêncio.

A gente vê campanhas, projetos, inclusão na escola, terapias, diagnósticos precoces. Existe um movimento — ainda que insuficiente — voltado para a criança autista.

Mas existe uma pergunta que incomoda… e quase ninguém responde:

o que acontece quando essa criança cresce?

A verdade é dura.

O autista não desaparece. Ele cresce. E, muitas vezes, cresce sendo deixado para trás.

Hoje, já se discute o que muitos pais sentem na pele: existe um vazio enorme no suporte ao autista na vida adulta. Falta preparo, falta política pública, falta oportunidade. Falta, principalmente… olhar.

E isso não é teoria. É realidade.

Eu sou pai de uma criança autista nível 3. E, como muitos pais, eu não tenho medo só do hoje. Eu tenho medo do depois.

Porque enquanto ele é criança, ainda existe algum suporte. Ainda existe escola, atendimento, alguma rede — mesmo cheia de falhas.

Mas depois?

Depois vem o mundo real.

E o mundo real não está preparado.

Não está preparado para empregar.
Não está preparado para incluir.
Não está preparado nem para entender.

E aí começa um dos maiores dramas silenciosos do autismo:

o abandono na vida adulta.

Muitos autistas acabam isolados. Fora do mercado de trabalho. Fora da vida social. Dependentes de uma família que também envelhece… e que carrega um medo constante:

“Quem vai cuidar dele quando eu não estiver mais aqui?”

Essa pergunta dói. Porque ela não tem resposta fácil.

E enquanto a sociedade celebra pequenas conquistas na infância, ignora completamente o futuro.

Ignora o jovem autista que termina a escola e não encontra caminho.
Ignora o adulto que quer trabalhar, mas não tem oportunidade.
Ignora famílias que vivem uma angústia diária… em silêncio.

E tem mais.

Existe uma ilusão perigosa de que, quando o autista “melhora”, ele não precisa mais de apoio.

Isso é um erro grave.

O suporte não pode desaparecer com o tempo. Ele precisa evoluir junto com a pessoa.

Porque o autismo não é uma fase.
Não é algo que fica na infância.
É uma condição que acompanha a vida inteira.

E quando o apoio some… o que sobra é abandono.

A gente precisa começar a falar disso com mais força.

Precisa cobrar políticas públicas de longo prazo.
Precisa discutir inclusão no mercado de trabalho de verdade — não só no discurso.
Precisa preparar a sociedade para acolher o adulto autista, não só a criança.

E, principalmente… precisa ouvir as famílias.

Porque quem vive isso sabe:

o maior medo não é o diagnóstico.

É o futuro.

Talvez o maior sinal de evolução de uma sociedade não seja como ela cuida das suas crianças…

Mas como ela não abandona seus adultos.

Porque no fim das contas, inclusão que termina na infância…
nunca foi inclusão de verdade.